Kulina

Dentre as etnias que sobreviveram aos massacres perpetrados contra os povos indígenas no Acre, uma delas chama mais a nossa atenção: os Kulina. Essa etnia é denominada pelos regionais não indígenas e por membros de outras etnias, por Kulina ou Madja; mas ao longo da história do contato já possuiu outras denominações, como Kulino, Madirra, Madijá, Kolina, Kollina, ou Kurina. Nenhum destes nomes pertence ao repertório vocabular original da língua Kulina.


O povo Kulina semelhantemente a outras etnias constituídos por famílias clânicas, para tanto, a nome Madja, assim como: Djamaica, Codizar e Camadeni, etnicamente falando, são nomes de clãs e não de povo. Todavia, é muito fácil encontrar numa grande aldeia Kulina pessoas pertencentes a estas quatro denominações. 


O que chama a atenção na trajetória dos Kulina é sua marcada rebeldia que alimentou no passado (e continua a alimentar) a recusa em aceitar a pasteurização que a sociedade invasora, ao longo de pouco mais de um século e meio, vem submetendo as populações originárias desta porção ocidental – que os brasileiros, embalados pela expansão da exploração gumífera, inventaram e denominaram de Amazônia. A língua do povo Kulina pertence à família lingüística Arawá, que até muito recentemente era tida, erroneamente, como pertencente a um subgrupo da família lingüística Arawak, também erroneamente classificada como tronco lingüístico. No Acre, apenas os Kulina falam uma língua da família Arawá.

No Acre os Kulina habitam aldeias localizadas ao longo dos rios Purus e Juruá, e seus principais afluentes, na Terra Indígena (TI) Alto Rio Purus, nos Municípios de Manuel Urbano e Santa Rosa; e no alto Rio Envira, na TI Kulina do Rio Envira e na TI Kulina do Igarapé do Pau, no Município de Feijó. Somam uma população de 1.367 pessoas. Além deste contingente,  vivem muitos Kulina na Amazônia brasileira, e no Peru vivem aproximadamente 400 indivíduos em aldeias localizadas ao longo do alto Rio Purus.

No período áureo da borracha, o contato com os seringalistas foi de muita violência. O testemunho do padre etnólogo Constant Tastevin, datado da década de 20 do século XX, atesta que o Rio Humaitá, no Departamento do Alto Tarauacá, era, por excelência, o rio dos Kulina. Mas como estes sempre foram arredios ao contato ocidental, num conflito mataram dois seringueiros, o que estimulou os seringalistas da região, sequiosos por vingança e pela desocupação dos territórios Kulina, a organizarem uma expedição de extermínio contra eles, forçando-os a fugirem para o alto Rio Envira. Mais tarde, alcançaram o Rio Purus (atravessando em expedições pela floresta), e encontraram grupos de parentes já radicados ali, passando também a manter intenso intercâmbio com os grupos assentados no lado da fronteira peruana.

Vê-se, portanto, que as pressões contra os índios são grandes e fortes. Mas ninguém tira e ninguém faz os Kulina saírem, ou se afastarem muito de suas tradições ancestrais. O sair no sentido da locomoção é comum a todos os grupos indígenas, e os Kulina também apresentam esses traços, uma vez que em suas tradições inexistem as fronteiras, quer seja as relativas ao Estado Nacional ou às unidades federativas.

Eles não saem e nem ninguém lhes tira é das condições sócio-lingüísticas e etnográficas de seus ancestrais. É bem verdade que eles vão ressignificando algumas coisas que parecem duras para a compreensão de nossa forma ocidental de entender. Mas eles guardam muito fortemente elementos da cultura material e imaterial, fazendo uso social de sua língua indígena, razão pela qual são praticamente monolíngües no idioma Madija. As mulheres de todas as idades, e as crianças de idade entre 07 e 14 anos, apresentam pouca ou nenhuma proficiência em língua portuguesa.

Eles têm grande apreço ao Taminé, ou cacique, como ficou consagrada a denominação dada ao líder indígena. Na verdade a palavra cacique é de origem Arawak e se popularizou a partir dos principais relatos de Cristovão Colombo, que generalizou este nome para designar esta função de chefia em todos os povos nativos com quem os europeus passaram a manter contato a partir da invasão do Novo Mundo.

O Taminé Kulina tem que ser generoso e bom orador, predicados essenciais para se manter como líder, pois o bom líder é o que sabe discernir as coisas e orienta a contento os seus pares. Tem que ser generoso, pois tudo que se produz deve ser partilhado, e o exemplo tem que vir primeiro daquele que, em tese, é o “maioral” do grupo. Os processos de cura e prevenção de doenças que os grupos da etnia praticam também são autóctones e os Kulina têm uma etnomedicina rica e eficiente, que muitas vezes é procurada pela população regional que vive no entorno de suas aldeias.

Na etnomedicina Madja as doenças se classificam em doenças internas e externas – sendo estas as que afetam a pele. Elas são consideradas brandas e curáveis com relativa facilidade, por meio de ervas que são mastigadas, deixadas de molho ou fervidas para o preparo de infusões a serem aplicadas como cataplasma sobre a área afetada.

No que diz respeito às doenças que os Kulina denominam como internas, elas são de dois tipos principais: Dori e Epetukái. A primeira ataca crianças e adultos, enquanto a última acomete os bebês. Para os Kulina, ambas são causadas por substâncias invasoras que eles denominam Dori e Epetukái.
No caso do Dori, os Kulina atribuem suas causas aos feiticeiros ou Xamãs inimigos – Dsoppinejé, na língua Kulina. Estes agentes injetam um pouco de substância (Dori) deles próprios nos corpos de suas vítimas. A doença Epetukái não é causada por feiticeiros, mas, da mesma forma que o Dori, tem origem sobrenatural ou mística, relacionando-se à transgressão de tabus alimentares. Tanto o Dori quanto o Epetukái são diagnosticados em contextos sociais que, invariavelmente, englobam franca hostilidade ou discórdia entre membros de diferentes famílias, constituindo-se, portanto, em evento patrocinador de controle e organização social, pois freqüentemente as acusações de Dori entre os grupos Kulina são determinantes na reconfiguração territorial.

O antropólogo Donald Pollock, que pesquisou entre os Kulina da aldeia Maronawa no Alto Rio Purus, e escreveu um texto fabuloso sobre a etnomedicina Kulina diz que: “O Dori é tratado num ritual chamado Tokorime, durante o qual os Xamãs que aparecem como vários espíritos Tokorime, retiram Dori do corpo do paciente.

Os rituais de cura acontecem à noite e podem durar horas ou se estenderem até o amanhecer”. Os Kulina por se recusarem a sair ou serem tirados de seu contexto sócio-cultural, quase não aderem aos modelos de gestão e de produção ocidental. Sua alimentação é constituída basicamente de produtos coletados na natureza, animais silvestres, peixes e frutos.

Essa alimentação é complementada com produtos cultivados em roçados, em primeiro lugar a mandioca e a banana, seguidas de taioba, cará, cana e, durante o verão, o feijão de praia, a melancia e o jerimum.

As mulheres e os homens trabalham na tecelagem de algumas peças de uso doméstico, como bolsas, pulseiras, redes e tipóias para carregar os recém-nascidos; também confeccionam artefatos em cerâmica, como potes, pratos e panelas, ou cestarias; arcos e flechas, com os quais abatem os animais. Dependendo da ocasião eles também negociam estes artefatos.

O mesmo ocorre com os produtos do roçado, que eles trocam, por produtos industrializados com tripulantes e passageiros de barcos que navegam regularmente no trecho entre Santa Rosa, Manuel Urbano e Sena Madureira.

Apenas uma coisa do mundo ocidental exerce grande fascínio sobre eles: a escrita. Porém, diferentemente de outras etnias, os Kulina aprendem a ler e escrever em sua própria língua e fazem uso social da escrita em língua indígena, sem abandonar as formas tradicionais de comunicação.

Os Kulina muito pouco demandam os serviços do Estado. Entre eles não é comum, como ocorre com a maioria das etnias, a busca por empregos públicos. O mais freqüente é o serviço voluntário. Como eles não se interessam por tirar registro civil de nascimento, há casos de professores que, por não possuírem documentação, lecionam até dois anos como voluntários.

 

*Este trecho foi retirado do documento: Relatório de Construção e Conclusão Parcial do Programa de Mitigação das Terras Indígenas da Região do Alto Purus referente à Revisão do Componente Indígena do EIA/RIMA da BR 364, Trecho Sena Madureira/Manoel Urbano/Feijó.  Junho de 2010, por Suzana de Farias e Silva e Neiva Tessinari, redação final de Francisco Candido Apurinã e revisão de Luiz Antonio Rocha.