Histórico do Povo Huni Kui

A inserção nos Seringais

Em território peruano, segundo levantamento da Federación de Comunidades Nativas de Purus (Feconapu), desde 2004, pouco mais de 1.400 Huni Kui viviam em 18 aldeias, em 11 "comunidades nativas" oficialmente reconhecidas no alto Rio Purus e em seu afluente, o Rio Curanja, numa área agregada de quase 194 mil hectares. Os Huni Kui falam o Hãtxa Kui (“língua verdadeira”), da família lingüística Pano. No Brasil e Peru o bilingüismo está presente nas aldeias. No Acre o Português é cotidianamente utilizado nas aldeias próximas às sedes municipais e à BR-364.

No Estado do Acre, o povo Huni Kui atualmente é considerado o mais numeroso, ocupando 12 das 35 terras indígenas identificadas pelo Governo Federal, com uma população estimada em 7.202 pessoas distribuídas em 101 aldeias. 

Em 1905, o tenente Luis Sombra foi destacado por Thaumaturgo de Azevedo, então Prefeito do Departamento do Alto Juruá, para coordenar as ações policiais no vale do Rio Tarauacá, tendo dentre suas atribuições reprimir as “correrias” dos seringalistas e caucheiros peruanos contra os indígenas. Após viajar pela região, Sombra destacaria a existência de “cupixauas”, ou “malocas”, ocupadas por famílias extensas Huni Kui no Riozinho da Liberdade, no alto Rio Gregório, em afluentes da margem direita do médio Rio Tarauacá, nos rios Humaitá e Iboiaçú e, principalmente, nos afluentes da margem direita do alto Rio Envira.

Quase duas décadas após o início da abertura dos seringais na região do Alto Juruá, essas malocas estavam situadas nas cabeceiras dos rios e em igarapés mais distantes de seus principais afluentes. Esta situação refletia a tentativa dos Huni Kui de se manter distantes dos seringais e evitar novas correrias e enfrentamentos armados que, nas décadas anteriores, tinham resultado em massacres, na invasão de seus territórios, na destruição de malocas e roçados, em migrações forçadas, epidemias e no rapto de mulheres e crianças.

À mesma época, nos seringais do médio Rio Tarauacá, a mobilização da mão-de-obra dos Huni Kui e outros povos (Yawanawá, Iskunawa, Katukina) foi realizado pelo cearense Ângelo Ferreira da Silva, com o auxílio de Felizardo Avelino de Cerqueira, depois contratado pela Prefeitura do Alto Juruá e pela Comissão de Obras Federais para pacificar as relações entre indígenas e seringueiros. Portanto, em 1909, após o assassinato de Ângelo Ferreira por seringalistas rivais, Felizardo seguiu para o alto Rio Envira, onde logrou mobilizar grande número de famílias Huni Kui na extração de caucho. A morte do patrão caucheiro Patrício pelos Huni Kui, em 1911, resultaria na migração de parte dessas famílias para o Rio Curanja, afluente do alto Rio Purus, em território peruano, onde por quase quatro décadas se manteria afastada de caucheiros e, depois, de madeireiros.

No final da década de 1910, a convite de patrões dos rios Tarauacá e Jordão, Felizardo estabeleceu as demais famílias Huni Kui no seringal Revisão, no alto Rio Jordão, onde, nos anos seguintes, trabalhariam "policiando a fronteira", para evitar que os índios conhecidos por Papavô continuassem a saquear casas, matar e prejudicar a produção de borracha.

Em 1923-1924, com Felizardo, os Huni Kui trabalharam com a Comissão Mista brasileiro-peruana que, nos rios Envira, Tarauacá e Jordão, fazia a demarcação da fronteira entre os dois países. No Acre, por quase 60 anos, os Huni Kui representaram importante fonte de mão-de-obra nos seringais. Atrelados ao aviamento dos barracões, os homens passaram a cortar seringa e, na base da diária, a realizar outras atividades para os patrões, dentre elas, reabrir e limpar varadouros e estradas de seringa, cultivar roçados e canaviais dos patrões, bater campos, transportar borracha e mercadorias, retirar madeira de lei, matar caças para tirar peles e couros e caçar e pescar para abastecer os barracões.

Discriminados como “caboclos” e seringueiros de pouca produção, eram enganados nos preços das mercadorias e da borracha, pagavam renda das estradas de seringa e eram, com freqüência, expulsos das colocações. Apesar dessas restrições impostas pelos patrões, mantiveram uma organização social marcada pela divisão em duas metades clãnicas: Dua Bakebu (os homens são Duá e as mulheres Banu) e Inu Bakebu (os homens são Inu e as mulheres Inani). Essa concepção dual da sociedade, que perpassa a mitologia e os rituais, continuou, sempre que isto foi possível, a regulamentar o casamento, a normatizar a reprodução dos nomes próprios em gerações alternadas e a condicionar o cotidiano das relações entre parentes e afins.

Ainda que muitas vezes tivessem seringueiros “carius” como vizinhos, as famílias Huni Kui continuaram a falar o Hãtxa Kui, a cozinhar e comer segundo seus costumes e, nas colocações, a cultivar roçados, caçar, pescar e coletar frutas para garantir sua subsistência, complementada com o trabalho na borracha e na diária.

No Tempo dos Direitos

O início da atuação da Fundação Nacional do Índio (Funai) no Acre, na segunda metade da década de 70, marcaria a mobilização de várias comunidades Huni Kui pelo reconhecimento de suas terras e a garantia dos seringais onde vinham trabalhando por décadas.

Com apoio da Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre), a partir das pioneiras iniciativas nos rios Jordão e Humaitá, cooperativas foram organizadas nas demais terras Huni Kui, abrindo alternativas ao domínio dos patrões. Sob a liderança dos chefes dos principais grupos familiares, novas colocações foram ocupadas, a produção e a comercialização da borracha passaram a ser feitas de forma coletiva e os patrões e seringueiros brancos acabaram por se retirar, em certos casos, depois de prolongados conflitos e negociações.

As lideranças Huni Kui do Rio Jordão desempenharam um importante papel no processo de regularização de terras indígenas no Acre, até meados dos anos 80, ao visitar outras terras para socializar sua experiência e motivar seus parentes e outros povos a levar adiante essa luta. Nas assembléias do nascente movimento indígena regional, além de reivindicar a demarcação de suas terras e apoio às cooperativas, os Huni Kui, junto com os demais povos, defenderam a necessidade da formação tanto de professores indígenas, para alfabetizar as novas gerações, administrar as cantinas e fortalecer a língua e as tradições culturais, como de agentes de saúde, que pudessem diagnosticar e tratar das doenças mais comuns.

Essa formação veio com o início de cursos promovidos pela CPI/Acre, desde 1983 e 1986, respectivamente, contando posteriormente com apoio de órgãos dos governos federal e estadual.

Em 2008, segundo dados da Secretaria Estadual de Educação (SEE), havia 80 professores Huni Kui (50 contratados pelo Governo Estado e 30 pelas prefeituras), dos quais 17 haviam concluído o ensino fundamental, 29 o médio, 58 cursava o ensino superior e 01 concluíra a licenciatura. Agentes de Saúde Indígenas e de saneamento básico continuam a trabalhar em suas comunidades, no âmbito de programas de assistência e formação sob a responsabilidade da Fundação Nacional de Saúde e das prefeituras municipais. Nos últimos anos, os tratamentos dos pajés e conhecedores de plantas medicinais têm ganhado crescente importância nas práticas terapêuticas nas aldeias.

Representação Política e Projetos de Futuro

A partir de 1994, a desestruturação das cooperativas, junto com a desnaturalização da matriz espacial dos seringais e o abandono das colocações de centro, resultou no surgimento de novas aldeias, formadas por números variáveis de famílias extensas, ligadas por laços de parentesco, afinidade e vizinhança. Com o fim do antigo sistema de poder político centrado nos “caciques” e nos “cantineiros” das cooperativas seguiram-se intensos rearranjos das alianças familiares, associados à renovadas estratégias políticas, econômicas e territoriais das famílias extensas nas aldeias.

Com a crise na economia da borracha, as famílias Huni Kui preferiram intensificar a diversificada agricultura de terra firme e de praia, aliada à criação de animais domésticos, inclusive de pequenos rebanhos bovinos. Por meio desta combinação das atividades produtivas, conciliada com os plantios nos terreiros, a caça, a pesca e a coleta, muitas famílias Huni Kui têm procurado garantir sua subsistência e se inserir na restrita economia dos municípios. Além da comercialização de criações domésticas e produtos agrícolas, as aposentadorias rurais e os salários de funcionários (professores, Agentes de Saúde Indígena, Agentes Indígenas de Saneamento Básico e Agentes Agroflorestais) são uma das principais fontes de renda de considerável parte das famílias Huni Kui, permitindo a compra das necessidades das redes extensas de parentes.

Se as cooperativas tiveram fundamental importância como forma coletiva de organização e comercialização da produção de borracha nos anos 1980, as associações Huni Kui assumiram, desde a década de 1990, exercerampapel central na tomada de decisões e na articulação de certas ações coletivas nas terras indígenas. Por outro lado, passaram a exercer a representação política das comunidades face às organizações indígenas regionais, aos governos municipais, estadual e federal, às organizações da sociedade civil e a diferentes agências da cooperação internacional.

A Associação dos Seringueiros Kaxinawá do Rio Jordão (ASKARJ) foi a primeira a ser criada no estado, em 1988. Três associações Huni Kui foram criadas nos anos 1990 e outras sete na primeira década do novo milênio. Por meio dessas associações, as comunidades têm obtido recursos financeiros para atividades de gestão ambiental, com a diversificação das atividades produtivas na agricultura e na criação de animais, o manejo de pesca e quelônios e a vigilância dos limites de suas terras, tarefas que têm sido realizadas sob a coordenação dos Agentes Agroflorestais Indígenas. Já em 2003, sete anos após o início de sua formação pela CPI-Acre, 65 Agentes Agroflorestais Indígenas – AAFIs trabalhavam em terras Huni Kui. Desde então, esse número cresceu, com a criação de novas aldeias, e as atividades passaram a envolver também significativa parte da população infantil, os “mirins”.

Nos últimos anos, os povos Huni Kui, através de suas organizações tiveram vários projetos aprovados, sempre contemplados nos programas de governo das esferas federal, estadual e municipal.

Em 2010, algumas associações desta etnia assinaram convênios com o Governo do Estado do Acre, para o empoderamento da produção e segurança alimentar, gestão territorial e ambiental, comunicação, transporte e fortalecimento cultural, sendo que esta última tem sido dada como prioridade pelas comunidades Huni Kui.

Contudo, é por meio das práticas tradicionais que vem sendo aprimorados a cada ano, os rituais de Katxanawa (para a fertilidade dos legumes) e de Nixpupima (rito de passagem de meninos e meninas, também chamado de “batismo”), têm construído centros culturais e Kupixawas, registrado mitos, cantos e técnicas artesanais, resgatado práticas medicinais e incentivado a produção e a comercialização de artesanato. Essas ações têm envolvido diferentes gerações de Huni Kui, valorizado o conhecimento de pajés, Dawyá (conhecedores das plantas perfumosas e sagradas), Txaná (cantadores), velhos e mestras artesãs, e resultado em várias pesquisas e numa extensa produção de materiais didáticos (cartilhas e livros) e audiovisuais (DVDs e CDs).

Em reconhecimento a esses trabalhos, algumas associações Huni Kui têm sido, nos últimos anos, contempladas com prêmios outorgados pelo Ministério da Cultura. Em 2008, a ASKARJ recebeu, na categoria “Associação Comunitária”, o Prêmio Chico Mendes, do Ministério do Meio Ambiente.

Ainda como parte dos canais de representação política, lideranças Huni Kui sediadas nas cidades participaram, desde sua fundação, da coordenação do movimento indígena do Acre e Sul do Amazonas, das organizações regionais de Tarauacá (OPITAR) e de Feijó (OPIRE), bem como das organizações de representação dos professores indígenas (OPIAC) e dos Agentes Agroflorestais (AMAAIAC).

Mais recentemente, em 2006, lideranças criaram a Federação Huni Kui, instância que pretende articular a representação política deste povo contemplando as 12 terras no Acre. Por meio de assembléia e reuniões, têm procurado discutir temas de interesse comum, dentre eles o reconhecimento e à proteção do patrimônio representado pelos Kaxinawá.

*Este trecho foi retirado do documento: Relatório de Construção e Conclusão Parcial do Programa de Mitigação das Terras Indígenas da Região do Alto Purus referente à Revisão do Componente Indígena do EIA/RIMA da BR 364, Trecho Sena Madureira/Manoel Urbano/Feijó.  Junho de 2010, por Suzana de Farias e Silva e Neiva Tessinari, redação final de Francisco Candido Apurinã e revisão de Luiz Antonio Rocha.