Jaminawa

Os Jaminawa, pertencente à família lingüística Pano, vivem atualmente no Estado do Acre em cinco terras indígenas: Cabeceira do Rio Acre e Mamoadate, ambas no município de Assis Brasil e partilhadas com o povo Manchineri; Jaminawa do Rio Caeté e Jaminawa do Guajará, situadas no município de Sena Madureira; Jaminawa do Igarapé Preto, localizada no município de Rodrigues Alves.

As Terras Indígenas São Paulino e Kaiapucá também pertencente a esta etnia, ficam situadas na região do Sul do Amazonas, mas tem os municípios de Sena Madureira e Rio Branco como referência para a realização de seus “negócios” devido à proximidade e a relação já estabelecida. Também são encontradas populações Jaminawa no Peru e Bolívia.

Segundo dados fornecidos pela Assessoria Especial dos Povos Indígenas, o Estado do Acre têm uma população de 1.009 pessoas desta etnia.


É difícil descrever acerca de grupos que passaram a vida andando pelos seringais e cauchais no Brasil, no Peru e na Bolívia. Os primeiros contatos entre as populações indígenas, seringalistas e caucheiros ocasionaram, além das “correrias”, o acirramento induzido dos conflitos intertribais, a introdução de doenças e a dispersão desses grupos pelas principais cabeceiras dos rios que hoje drenam o Estado do Acre.

O povo Jaminawa é originário dos vales dos rios Ucayali e Juruá. Após o contato com caucheiros peruanos e exploradores nordestinos durante a abertura dos seringais da região acreana, vários grupos que viviam por essa região, como os Xixinawa (gente do quati), Kununawa (gente da orelha de pau), Yawanawá (gente do queixada), Mastanawa (gente do socado), Bashonawa (gente da mucura) e Sharanawa (gente boa) acabaram formando um só grupo, com a denominação de Jaminawa, atribuída pelos não índios. Isso se deu por vários motivos, dentre eles, a disseminação de doenças e epidemias, o que levou à morte de centenas de indígenas e até mesmo povos inteiros.

A “junção” dessas diferenças ocasiounou marcantes divergências internas que não se resolveram até os dias atuais. Desde os anos 90, devido aos graves problemas e conflitos internos, seus integrantes deixaram suas aldeias ocuparam as cidades acreanas de Assis Brasil, Brasiléia, Sena Madureira e Rio Branco. Isso acarretou a esses indígenas, ao longo do tempo, diversos problemas típicos da vida nas grandes cidades. Desde então, setores da opinião pública e até mesmo a imprensa, passaram a questionar a política indigenista – sobretudo no tocante à demarcação de terras indígenas no Estado do Acre – e esse fenômeno da vinda de representantes Jaminawas para as cidades próximas.

O argumento usado era que essas ações de regularização fundiária não surtiam o efeito desejado, pois os indígenas do estado estavam abandonando suas terras e vindo para as cidades em situação de mendicância, expondo velhos e crianças aos perigos das ruas, à prostituição e ao alcoolismo.

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas, a resistência cultural do povo Jaminawa é algo a destacar. A cultura material, ou seja, o artesanato passa hoje por um processo de revitalização, no qual a cerâmica, a tecelagem e a cestaria têm sido as práticas mais enfatizadas. A tradição da cerâmica foi praticamente abandonada, sobretudo pelos mais jovens; no entanto, os mais idosos ainda detêm as técnicas do feitio. Em todas as aldeias há a presença dos guardiões da memória e da tradição ancestral, que acabam assumindo o papel de repassá-las às novas gerações, perpetuando seus costumes milenares.

Os Jaminawa são um povo que possui um repertório riquíssimo em narrativas míticas, músicas xamânicas e líricas. Até hoje guardam muitos traços de sua cultura original, tais como sua língua tradicional e hábitos nômades e guerreiros. E por falar em guerreiros, no tempo das malocas costumavam trabalhar com flechas, que na língua materna chamam de Piya Kati, com as quais matavam vários animais, tais como o porquinho, peixe, macaco, anta, queixada e outros, além de utilizá-la nos conflitos com outros povos.

Recentemente, a Gerência de Educação Escolar Indígena da Secretaria Estadual de Educação publicou a cartilha “Jaminawa”, escrita por um grupo de professores bilíngües (língua do povo Jaminawa e portuguesa) e monolíngües (em português). Esse material foi pensado para instrumentalizar os professores com materiais didáticos escritos, assegurando o ensino escolar bilíngüe.

Os Jaminawa utilizam em seus rituais de cura o Shori (Ayahuasca), bebida bastante usada por vários grupos indígenas da região amazônica. O Shori é um elo, entre o céu e a terra, o fio condutor entre os seres humanos e os espíritos. Para eles, o Shori, ao ser tomado, é remédio que traz saúde para o corpo. Costumam aplicar também o bagaço do cipó sob as partes doentes do corpo. Nas relações de parentesco, tratam uns aos outros por Yura, ou “parentes”. Os membros de outras etnias também são Yura, enquanto que o não índio é denominado Dawá.

Costumam realizar o Mariri, dança tradicional, com certa freqüência. Antes do contato, costumavam furar o septo do nariz ou o queixo para colocar enfeites. Após o contato, foram gradativamente “esquecendo” esse hábito: os mais idosos, mesmo tendo o nariz ou o queixo furado, passaram a não mais usar os enfeites. A moradia dos Jaminawa é simples, construída em paxiúba, coberta de palha, tradicionalmente com uma varanda, um cômodo para dormir e uma cozinha, onde fica o jirau usado para lavar utensílios. Provavelmente essa forma de construção foi absorvida durante a convivência nos seringais após o contato com o não-índio.

Em relação ao trabalho, costumam caçar, pescar e plantar no roçado. A banana e a macaxeira constituem as principais bases da alimentação. A macaxeira é utilizada para fazer caiçuma e comer cozida, junto com a carne de peixe ou de caça. A banana é utilizada de diversas formas: cozida, assada, torrada no óleo, como mingau, cozida verde com peixe ou no mingau de banana com água e leite.

O jerimum também é bastante apreciado. Este último costuma ser plantado com a formação das praias durante o verão, período em que os rios e igarapés secam e o povo Jaminawa aproveita para plantar, além do jerimum, melancia, feijão e amendoim.

As famílias trabalham nos seus roçados, garantindo a autonomia para sua subsistência. Os homens cuidam do roçado e as mulheres ajudam na colheita e no preparo da comida. A criação de animais é feita por diversos motivos, quer seja pela necessidade de se suprir de forma mais pronta a alimentação, no caso dos carneiros, patos e galinhas; ou ainda para se ter uma poupança em situações de dificuldades (como o gado) ou mesmo para lidar com as criações, que é o caso de cavalos. Sobrevivem também com a troca entre os parentes, sobretudo distribuem entre si a carne e o peixe.

 

*Este trecho foi retirado do documento: Relatório de Construção e Conclusão Parcial do Programa de Mitigação das Terras Indígenas da Região do Alto Purus referente à Revisão do Componente Indígena do EIA/RIMA da BR 364, Trecho Sena Madureira/Manoel Urbano/Feijó.  Junho de 2010, por Suzana de Farias e Silva e Neiva Tessinari, redação final de Francisco Candido Apurinã e revisão de Luiz Antonio Rocha.