Ashaninka

O povo Ashaninka que significa “seres humanos”, “povo” ou “nossa gente”  (VARESE, 1986) foram designados pelos não – índios de Kampa. Eles pertencem a família lingüística Aruak, desceram a os Andes, passaram as fronteiras do rio Ucayali, devido a conflitos com não – índios e se instalaram na floresta.

Tiveram contato com os espanhóis ainda durante o processo de colonização da região. A presença espanhola foi notadamente marcada por uma série de conflitos , violência e tentativa de submissão destes índios pela ação dos missionários visto a necessidade de integrá-los às missões (MENDES, 1991, p. 12).

O contato foi marcado também pela resistência indígena e a articulação com os diversos grupos indígenas tais como os Ashaninka, Piro, Amuesha e Conibo. Dentre os episódios, um dos mais notáveis foi o promovido por Juan Santos Atahualpa no século XVIII (PIMENTA, 2002).

A pressão pelos recursos naturais, fez com que eles adentrassem no Acre.

Os Ashaninka vieram do Peru no final do século XIX, trazidos por caucheiros peruanos. Povo reconhecidamente guerreiro, foi incorporado ao sistema seringalista, forçado a realizar “correrias” com outros Povos Indígenas, principalmente de língua Pano, que dificultavam a exploração de seringa na região. Os patrões promoveram o acirramento de brigas com seus inimigos tradicionais, que culminou na dizimação dos Amauaka. Em troca desse serviço, recebiam produtos manufaturados, tornando-os dependentes da sociedade envolvente (ALMEIDA, 2002: 26)

Esta pressão ainda não está resolvida. Mesmo com as terras garantidas, os Ashaninka ainda sofrem pressão sobre os recursos naturais que se encontram no interior delas, especialmente no que se refere a exploração de madeira, especialmente em áreas de fronteira.

Tastevin foi um dos primeiros pesquisadores dos Ashaninka e registrou a presença destes por volta de 1920 às margens do Juruá - Mirim. Eles se instalaram também no rio Envira e no Breu, que é afluente do Tarauacá.

Originários do Peru, instalaram-se no alto curso do rio Envira e no rio Breu, afluente do Tarauacá. A última migração  deste grupo também procedeu da bacia do Tarauacá, onde viviam a cerca de quinze ou vinte anos. Era uma região pouco piscosa, pobre de caça e que os obrigava a longas e perigosas caminhadas diárias em busca de alimento.

Certo dia, um dos índios, de nome Benjamin subiu o rio Envira até suas cabeceiras e ao chegar a região do Xinane, constatou grande fartura alimentar que daria ao restante da comunidade a solução para a carência em que viviam. De volta, conseguiu convencer grande parte a transferir-se tornando-se então nos presentes habitantes da área ( FUNAI,1977: 13 – 14).

Instalaram-se, inicialmente, na margem esquerda do rio Envira. Posteriormente, mudaram para a margem direita, em frente ao Xinane. Durante o ano de 1974, mudaram para um lugar mais seguro devido a uma grande cheia na aldeia.

Dentre as personagens mais antigas da região consta Txompo que falou para pesquisadores sobre a procedência dos Ashaninka, inclusive a sua, enfatizando o Ucayali como ponto de partida (IORIS, 1996: 39). A chegada de Txompo e sua família constitui o marco para a fixação dos Ashaninka do rio Envira.

Há uma bonita versão coletada por IORIS (1996), na qual a chegada ao Envira se associa a visão de um xamã sobre um caminho a percorrer. A  busca associa então o mito a história.

Através da visão de um caminho a seguir que teve um pajé, iniciou-se esta trajetória. Esta visão, para o Pajé, havia sido proporcionada quando este seguia rigorosamente uma dieta especial a base de mel de tabaco. Nesta, começou a ouvir uma música do lodo que o sol nasce. Pava é o deus – sol, e juntamente com esta música surge um manitsi (onça), que chegou para atacá-lo, mas ao se aproximar do pajé transformou-se em uma linda mulher, e esta lhe trocou a língua. Então, novamente transformou-se em manitsi e saiu andando, indicando para o pajé o caminho a seguir. Desta forma, desceram a montanha, chegaram a floresta até o rio Ucayali, depois o Juruá, Breu e finalmente o Envira (IORIS, 1996: 52).

O Envira era permeado de seringais. Txompo, quando chegou ao local, se engajou na atividade de extração de madeira. Esta, entretanto, não foi a única atividade econômica na qual os Ashaninka estiveram ligados. A extração e comércio de peles foi por eles desenvolvida também (Idem, 43), aliás o comércio produziu uma intensa mobilidade nos Ashaninka e que até os dias de hoje é praticado. Este é o caso da venda de feijão que é levada da aldeia para a cidade.
As transformações ocorridas no Envira foram reflexo da situação política do Brasil dos anos 70 do século XX. Vários seringais passaram a tomar formato de fazenda. Apesar de menor intensidade, o Envira sofreu com este tipo de impacto. Surgiram então algumas fazendas.
Empresários do Sul do Brasil começaram a investir então em terras. Este foi o caso da Companhia de Desenvolvimento Novo Oeste, do grupo Atalla Copersucar. O primeiro investiu no alto Envira e o segundo no médio Envira.
Foi através da Atalla Copersucar que foi criada a fazenda Califórnia, contando com 427.390 hectares. Segundo dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, a Fazenda Califórnia era a terceira fazenda do Acre em hectares de terra. (Ibidem, 56).
A população dos Ashaninka no Estado hoje soma hoje 813 pessoas, espalhados em área de 341.987 há nos municípios de Marechal Thaumaturgo, Tarauacá e Feijó.

Dentre as Terras Indígenas mencionadas, a primeira a ser identificada foi a área do Envira. Os Ashaninka desta Terra Indígena são, atualmente, em número de duzentos e trinta. A Terra Indígena conta com 232.795 há ou 395 Km2. A Terra Indígena Kampa e Isolados do Envira é regularizadA (PIMENTA, 2002).

Este trecho foi retirado do documento: Ashaninka e Kaxinawa do Envira: Oficina de Proposições e Subsídios para o Plano de Mitigação da Pavimentação da Rodovia BR 364 – Trecho Sena Madureira/ Manoel Urbano/ Feijó. Por Wladimyr Sena Araújo

Referências

ALMEIDA, Líbia dos Santos de. Da Cordilheira para a Floresta. In História Indígena da Amazônia Ocidental. Rio Branco: FEM, 2002.

FUNAI. Relatório sobre a Área do Rio Envira – Acre. Brasília, 1977 (mimeo.).

IORIS, Edvirges Marta. A FUNAI entre os Campa e os “Brabos”. Rio de Janeiro: UFRJ/ Museu Nacional, 1996.

MENDES, Margarete Kitaka. Etnografia Preliminar dos Ashaninka da Amazônia Brasileira. Campinas: UNICAMP, 1991.

PIMENTA, José. “Índio não é Todo Igual”: a construção Ashaninka da história e da política interétnica. Brasília: UnB, 2002 (Tese de Doutorado)

VARESE, Stefano. La Sal de los Cerros. Notas Etnográficas sobre los Campa de la Selva del Peru. Lima: Universidad Peruana de Ciencias y Tecnología, Departamento de Publicaciones, 1968.